OBRIGADO, PAI
Dentro de alguns dias assinala-se um ano desde que o meu pai faleceu. Quero deixar aqui uma homenagem à pessoa que foi e à memória, ao respeito e à profunda admiração que dele permanecem em mim.
A imagem de um pai herói poderá parecer excessiva e pouco coincidente com a figura do meu pai. Ainda assim, não consigo afastar essa ideia. À sua maneira, foi-o. Fez tudo o que estava ao seu alcance para me dar uma vida digna e segura, dentro das possibilidades que tinha e dos limites do mundo que conhecia. Enfrentou momentos muito difíceis ao longo da vida, mas nunca desistiu. Soube sempre encontrar forma de ultrapassar contrariedades profissionais, sociais, políticas e familiares.
Na minha perspetiva, recebeu uma educação emocionalmente repressiva, assente em valores antiquados. Cresceu numa família e numa sociedade marcadas por referências militares e católicas, moldadas por uma disciplina pouco compatível com uma criança que precisava de afeto, escuta e espaço para crescer emocionalmente. No fundo, creio que nunca se reviu totalmente nesses valores.
Hoje parece-me que os meus avós não souberam reconhecer uma personalidade mais sensível, que exigia outro cuidado. Dessa falha nasceram feridas silenciosas. O meu pai não as transformou em revolta nem em ressentimento, mas numa dificuldade profunda em lidar com a própria emotividade. Mais tarde, quando lhe coube educar os filhos, acabou por reproduzir o que aprendera: com menos dureza, é certo, mas também com distância e um afeto contido.
Que pai escapa ao olhar crítico de um filho? Também eu serei, um dia, julgado pelos meus. Descobrir que os pais não são as figuras perfeitas que imaginámos é um dos grandes choques do crescimento. A relação do meu pai com o pai dele sempre me intrigou. Creio que o silêncio entre ambos escondia muito por resolver.
Como acontecia tantas vezes na sua geração, entregou à minha mãe a dimensão afetiva da família. E, absorvido por si mesmo e pelos seus interesses, manteve-se num lugar distante, quase inalcançável para uma criança como eu. Quando a minha mãe morreu, viu-se perante uma responsabilidade imensa para a qual não estava preparado.
A esse afastamento juntou-se, para mim, algo ainda mais doloroso: a sensação de que não respeitava a minha inteligência nem os meus interesses, vendo-me sempre como menor. Cresci entre a carência, a revolta e o mal-estar. Durante muitos anos, a nossa relação viveu do conflito, embora eu nunca deixasse de o admirar e de procurar a sua atenção e aceitação.
Com o tempo, com terapia e com um esforço sincero para o compreender para além das minhas feridas, a minha perspetiva mudou. Hoje vejo-o, antes de tudo, como uma pessoa de bem e como um amigo. Acredito que fez sempre o melhor que soube e que, como todos nós, também errou. Talvez tenha amado da única forma que conhecia. E talvez a sua maior tristeza tenha sido nunca saber dizer que nos amava.
Mas, tal pai, tal filho, também eu lamento não lhe ter dito mais vezes aquilo que me era difícil dizer: que o amava. E no fundo o que deve alimentar uma qualquer relação adulta e amiga, deve ser uma constante troca, uma sinergia em ambas as direções e não uma constante exigência/cobrança de uma relação unidirecional de pai para filho, como nos nossos primeiros tempos
Quanto mais me revejo nele, melhor me conheço a mim próprio. Inevitavelmente, somos fruto e consequência.
Obrigado Pai.Que falta me faz não ter dito mais vezes.Obrigado Pai.
Cascais 20.04.2026
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